segunda-feira, 11 de junho de 2012

Ìtòn òyèkú méjì


ÌTÒN  ÒYÈKÚ MÉJÌ

As consequências de desdenhar o sacrifício

Você é Òyè,1
Eu também sou Òyè,
A luz do dia está aparecendo no céu.
Mas, as pessoas pensaram que já era manhã.
Foi feita divinação para peixe.
kie era uma cria do leito do rio.
Foi dito para peixe fazer sacrifício.
Eles disseram que ela teria muitos filhos,
Mas foi avisada para fazer sacrifício para prevenir ataques
dos seres humanos.
Ela não fez sacrifício.
Ela disse que não era possível para os inimigos,
Ver seus filhos na cabeceira do rio
Ela tomou seus sacerdotes de ifá como mentirosos
Ela chamou Èsù de ladrão.2
Ela olhou sem temor para o céu como
  se nunca fosse morrer.
Ela fez ouvidos de mercador para os avisos sobre sacrifívio.
Quando os seres humanos subiram à cabeceira do rio,
Eles pegaram enxada, cutelo, e ògbún,3
Eles represaram o rio,
E começaram a drenar suas águas.
Quando não tinha mais água cobrindo o peixe e seus filhos,
Os seres humanos os pegaram,
E os colocaram em cima de inhame pilado,
Aquilo foi uma ordem de Èsù,
Que preveniu a aniquilação de todas as espécies
 de peixes da face da terra.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

ÌTÒN - OKANRAN MÈJÌ


ÌTÒN - OKANRAN MÈJÌ
 Oya é Mais Perigosa do Que Sàngó; A Esposa é Mais Perigosa Do Que o Marido
Quando nós vemos um Òkànràn neste caminho,
e vemos um outro Òkànràn naquele caminho,
A marca é de Òkànràn Méjì que significa boa sorte.
Foi quem jogou Ifá para Sàngó, apelidado Olúòrójò.1
Bámbí, fonte daqueles que usam duzentas pedras de raio para vencer seus inimigos.
Quando ele estava indo tomar Oya, como esposa.
Foi dito a Sàngó para ser cuidadoso.
Porque a esposa com a qual ele estava indo se casar Seria mais bem sucedida que ele.
Mas, Sàngó recusou-se a fazer sacrifício.
Ele estava curioso de como sua própria esposa
Poderia ser mais bem sucedida que ele.
Se Sàngó jogar pedras de raio em algum lugar,
Todo mundo começaria a gritar o seu nome.
Mas, se Oya,sua esposa,Matasse duas pessoas no mesmo dia,Ninguém ouviria sobre o incidente.
Se ela quisesse,Ela sopraria um vento forte contra uma parede,E a parede cairia sobre as pessoas e matá-las.
Se ela quisesse derrubaria àrvores em cima das pessoas e as mataria.
Mas, se Sàngó mata uma só pessoa,Todo mundo vai ouvir do incidente.
Ele disse que foi exatamente como seus sacerdotes de Ifá
Usaram suas boas vozes para louvar Ifá.
“Quando nós vemos um Òkànràn na direita,
E nós vemos outro Òkànràn na esquerda,
A marca é de Òkànràn Méjì, que é sinal de boa sorte.
Foi quem jogou Ifá para Sàngó, apelidado Olúòrójò,Bámbí, fonte para aqueles que usam duzentas pedras de raio para 
   vencer seus inimigos.
Quando ele estava indo para tomar Oya como esposa.
A esposa é mais perigosa que o marido.
a esposa é mais perigosa que o marido.
Oya é mais perigosa que Sàngó.
A esposa é mais perigosa que o marido.”

CURIOSIDADES


CURIOSIDADES 


1. O número de divindades no panteão Yoruba varia entre 401 e 201. A maior parte destas divindades são deuses menores cultuados nas pequenas cidades e vilarejos. Alguns mitos dizem que as divindades vieram à terra em ondas.

2. Para detalhes sobre a função das divindades maiores, veja Idowu, E.B., Olodùmàre, God in Yoruba Belief, Longmans, 1962.

3. Ògún é a divindade Yoruba da guerra e da caça. Seu símbolo é o ferro, e ele é cultuado por caçadores, fazendeiros, ferreiros e outras profissões que usam implementos em ferro.

4. Òòsàálá que também é conhecido como Obàtálá é a divindade responsável pela criação. Porque ele pode ser encontrado em quase todas as cidades Yoruba e por ser a sua função a criação, Idowu no seu livro Olódùmarè, God in Yoruba Belief dá Oxalá como a arque(principal) divindade Yoruba.

5. Èsù ou Elégbára é a divindade ardilosa, que mantém o Asé com o qual Olódùmarè criou o universo e mantém suas leis físicas. Além disso, Èsù atua como policial para Olòdùmarè, para forçar consonância com os valores éticos do universo.

6. Existe um outro mito que declara que as divindades vieram para a terra do Orun, que era parte de outro território. Nesta época segunda a mitologia Yoruba Ayé (terra) e Òrun ( céu) faziam parte do mesmo planeta, mas o Òrun mais tarde, distanciou-se  devido aos desonestos habitantes e insultos com que os seres humanos trataram Olórun ( outro nome de Olódùmarè, que significa senhor do Òrun) todos os dias.

7. Ifè é uma importante cidade Yoruba. É o centro espiritual dos Yoruba. Acredita-se que um santuário é mantido em Ifè para todas as divindades Yoruba. Ifè foi também o centro intelectual da sociedade tradicional Yoruba. Esta cidade tradicional cidade primavera, que agora abriga a universidade de Ifè, pode ser considerada a Meca dos Yoruba.
Não é, entretanto, certo se a Ifè da mitologia, onde as divindades chegaram na terra é a Ilé-Ifè dos dias de hoje. Existem muitas Ifè conhecidas pelos historiadores, mas aquela na qual as divindades chegaram é conhecida como Ifè-Oòdáyé.


8. Os Yoruba acreditam que Ifè é o berço da humanidade e é, portanto, para os Yoruba o que o jardim do Éden é para a mitologia judaica.

9. Isto, provavelmente, explica porque a galinha é mais usada que qualquer outra criatura como oferenda a Ifá. A galinha foi o primeiro mensageiro das divindades e portanto pode ser creditada como meio de enviar mensagens atrvés de ebo(sacrifício), para as divindades. As galinhas que têm cinco dedos são consideradas pelos Yoruba como uma criatura única. Elas são usadas no preparo de importantes medicamentos.

10. O camaleão é uma criatura sagrada para os Yoruba. Na sociedade tradicional Yoruba , era proibido matar camaleões exceto para propósitos médicos ou rituais. Os Yoruba consideram o camalião como um ajéègùn (aquele que faz medicamentos poderosos). O camaleão é frequentemente incluído em importantes medicamentos para aumentar a sua potência.

11. Muitas das dinastias de governantes dos numerosos reinos Yoruba remontam suas origens a Odùdúwa, também conhecido como Olófin por acreditar-se ser o grande ancestral do povo Yoruba. A presente dinastia governante na importante cidade de Òyó e descendente direta ( através de Òràáyàn, um dos netos de Odùdúwa) de Olófin.Portanto, o governo da sociedade Yoruba tradicional, era baseado no direito divino dos reis.

12. Para uma discussão detalhada sobre a história do reino Yoruba veja Smith, R.S., Yoruba Kingdoms Methuen, London, 1969.

13. O antigo império de Òyó era o maior e mais importante dentre os grupos políticos Yoruba antes de sua destruição nos anos 1930. O poder do rei era baseado em extensivas relações comerciais com os estados Sudaneses e com os reinos selvagens do litoral. O rei também mantinha uma grade armada, baseada numa cavalaria de arqueiros liderados pelo Oníkòyí e káká-nfò.

14. Ìgetí é o nome de um lugar em Ifè tida côo a primeira moradia de Òrúnmìlà na terra.

15. Outros mitos relatam outros filhos de Òrúnmìlà, aparte os outros oito filhos homens referidos neste mito.

16. Não sabemos se Adó aqui se refere a Adó-Èkìtì que é no nordeste ou Adó-Àwáye, que é no oeste da terra Yoruba.

17. Veja Abimbola Wande, Ìjinlè Ohùn Enu Ifá, Apákìíní,Collins, Glasgow, 1968, pp. 43-47.

18. a maior parte das divindades , acredita-se que deixaram a terra para o Òrun com a aparência de seres humanos comuns.

19. Abimbola, Wande,Ìjìnlè Ohùn Enu Ifá, Apá Kejì, Collins, Glasgow, 1969, pp. 87-98.

20. Os cabritos tentaram comer as navalhas porque pensavam que eram comestíveis. Este exagero, mostra somente a fome extremo que reinou na terra como resultado da partida de Òrúnmìlà.

21. Uma palmeira similar conhecida pelos sacerdotes de Ifá como òpè Àgùnká que tem uma copa extraordinariamente grande é usada pelos sacerdotes de Ifá como um símbolo de Ifá.

22. Abimbola, Ìjinle Ohùn Enu Ifè, 1969,pp.142-157.

23. Para detalhes sobre Odù,ver secção III desta introdução.

24. Òpèlè é o nome da àrvore que nasce livre na natureza.

25. Para detalhes sobre Orí como termo na poesia divinatória de Ifá, veja secção III (c) .

26. O ibà constitui a primeira parte do canto do sacerdote de Ifá, e do Ìjálá ( poesia de caçador)do cantor. É uma saldação às autoridades da terra como os mais velhos e as feiticeiras e uma evocação às divindades para estarem presentes ao canto do repertório do artista, de forma que ele não erre.

27. O Yoruba considera  Ilè (a terra) como uma divindade. Esta divindade é cultuada pelos Ogbóni, a mais importante das sociedades secretas Yoruba.

28. Para maiores detalhes sobre ajogun, veja a seção III (c) .

29. Abimbola, ìmìnlè Ohún Emi Ifá, 1968,p.101.

30. Embora Ofún seja o último e, portanto o mais novo nesta hierarquia, os sacerdotes de Ifá acreditam que ele foi originalmente o mais importante dos Odù. Por isso, sempre que um sacerdote de Ifá quer cantar um poema de Òfún Méjì ele beberá um pouco de dendê saudando Òfún como o rei com as palavras “ héèpà Odù” ( eu saúdo o rei dos Odù).

domingo, 3 de junho de 2012

Ìbò, Ìyèròsùn,Iróké instrumentos indispensáveis ao culto de Ifá


         Ìbò ( instrumentos de confirmação)

Quando um Odù for encontrado e o cliente reconhecer o poema que se aplica ao seu problema, o sacerdote de Ifá faz uso , então do Ìbò para encontrar detalhes adicionais relacionados a interpretação do poema que foi identificado.Para quem a mensagem de Ifá é dirigida? Para o cliente ou para um de seus parentes? Como deve ser feito o ebó que foi indicado para o cliente? Estes e outros problemas são resolvidos pelo uso do Ìbò.
O instrumento básico do Ìbò é um par de búzios amarrados e um osso. Os búzios representam uma resposta positiva, enquanto que o osso representa uma resposta negativa das divindades em relação a todas as questões colocadas. Mas, muitos outros instrumentos também são usados como parte do Ìbò, para simbolizar difetentes coisas, por exemplo, um pedaço de pedra representa boa saúde, enquanto que a noz do castanheiro da África representa o próprio Òrúnmìlà.
A crença do sacerdote de Ifá e de seu cliente sobre o uso dos instrumentos do Ìbò é de que Ifá irá falar ao cliente através dos instrumentos do Ìbò, para explicar os detalhes do poema que foi identificado como apropriado, tendo relação direta com seu problema.
O sacerdote pede ao cliente para colocar o osso em uma das mãos e o para de búzios na outra mão. O cliente pode manter qualquer um dos dois objetos em qualquer uma das mãos, esquerda ou direita. O sacerdote faz uma pergunta a divindade, como esta: Ifá você vê problemas de saúde? Quem é a pessoa que está doente? É a esposa do cliente?
O sacerdote, então, manipula seu instrumento de divinação duas vêzes. Se o Odù que ele vè na Segunda vez é maior ( mais velho) do que aquele que ele viu na primeira jogada, o sacerdaote pedirá ao cliente que mostre a mão direita, mas, se o Odù visto na Segunda vez é mais novo que o anterior, ele pedirá a mão esquerda. Se por exemplo, o conteúdo  da mão direita é um osso, isso significa que a resposta a pergunta feita é negativa. Neste caso o mome de um segundo parente ou do próprio cliente substituem o primeiro. A pergunta é refeita e a divinação continua até a resposta positiva.
O Ìbò é , portanto usado para obter respostas para os problemas que podem surgir na interpretação dos poemas.
Eles agem como um meio de comunicação rápido entre Ifá e o cliente. Sem o Ìbò, seria impossível determinar as minúcias de cada divinação. Mas, o cliente setá interessado nessas minúcias afim de conseguir satisfação e confiança de que ele identificou seu problema e ofereceu a solução certa.


       Ìyèròsùn ( pó divinatório )

Quando o sacerdote de Ifá usa as nozes sagradas de palmeira, como foi explicado acima, ele imprime as marcas simples e duplas obtidas em cada manipulação, no pó sagrado da divinação denominado Ìyèròsùn.
Este pó esbranquiçado ou amarelado é obtido da árvore Ìrosùn ou do bambú seco transformado em pó por cupins.O pó é colocado no Opón Ifá (a bandeija talhada em madeira ) e o sacerdote imprime marcas nele a medida que manipula as nozes de palmeira.

O pó divinatório é considerado pelos sacerdotes de Ifá como um símbolo sagrado de Ifá. Partículas deste pó são borrifadas nos sacrifícios para assegurar a aceitação pelas divindades.
Ao cliente, algumas vezes, é pedido que engula o pó e esfregá-lo na cabeça para forjar um laço de união entre ele e as divindades de forma que ele possa ficar satisfeito que as divindades o estão auxiliando na resolução dos seus problemas.

     Iróké (objeto entalhado em madeira ou marfim usado para evocar Ifá.)
Enquanto está fazendo divinação, o sacerdote de Ifá bate repetidas vêzes no Opón Ifá com o Iróké para chamar Ifá para estar presente na divinação.
Os praticantes ou subordinados de importantes sacerdotes de Ifá carregam o Iróké na frente dos seus superiores quando eles saem para realizar alguma importante cerimonia. O Iróké é esculpido em marfim ou madeira em tamanho pequeno ou grande. Em alguns Iróké uma figura humana ou a cabeça de um ser humano é esculpida.
A parte sua parte superior é esculpida numa forma cónica, longa e afilada. A parte de baixo tem um formato de boca alargada e suporta o instrumento quando colocado em pé.
O sacerdote de Ifá segura o Iróké pela parte alargada enquanto bate com a parte longa , superior contra o Opón Ifá durante a divinação.
(iv)       Opón Ifá ( tábua divinatória )
Conforme mencionamos acima, o sacerdote de Ifá imprime suas marcas nuima bandeja de madeiraquando ele usa as nozes de palmeira sagrada para divinar. As tábuas fivinatórias são esculpidas em diversos tamanhos e formas. As margens da tábua são dominadas por um padrão intrincado de diversos objetos tais como pássaros, répteis, tartarugas e animais selvagens. O meio da parte superior é reservado para a imagem de Èsù( o divino trapaceiro que mantém o Àse ). Desta posição a imagem de Èsù olha para o sacerdote de Ifá como se ele estivesse dirigindo ou assistindo a divinação. O interior da tábua em sí pode ser tanto redondo quanto quadrado.

sábado, 2 de junho de 2012

RITUAIS MORTUÁRIOS: ESPAÇO DE CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA Posted on 14/05/2012


RITUAIS MORTUÁRIOS: ESPAÇO DE CONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA

Rituais mortuários: espaço de construção identitária

Joanice Santos Conceição*

Os ritos sempre acompanham o homem em diversas fases da sua vida. Tanto o homem moderno quanto o tradicional, ainda que cada qual apreenda de formas e jeitos diferentes, os rituais sempre estarão presentes na vida humana, como o nascimento, o batizado, a primeira comunhão, a circuncisão, o noivado, o casamento, dentre outros. Dos muitos rituais existentes em todas as sociedades falaremos aqui dos ritos de passagem, pois eles exercem grande influência nas diversas fases da vida, porém não podemos esquecer que estes ritos não escapam às exigências dos novos apelos sociais. Assim, as discussões feitas por Mauss, Godelier e Eliade são sempre atuais para pensarmos a função da dádiva e dos rituais. Eliade, por exemplo, nos diz o seguinte:
[...] há também ritos de passagem no nascimento, no casamento e na morte, e pode-se dizer que, em cada um desses casos, se trata sempre de uma iniciação, pois envolve uma mudança radical de regime ontológico e estatuto social. (ELIADE, 1992:150). 
O trecho acima ratifica o que presenciamos no nosso dia-a-dia e ao longo da vida. Entretanto, nossa discussão repousa sobre os ritos mortuários africanos que persistem resistindo às novas formas de práticas ritualísticas. E uma vez que podemos observar em diferentes sociedades tais rituais, é preciso salientar, sobretudo, que em todas essas sociedades os ritos mortuários cumprem suas funções. Dentro da visão de mundo africana, especialmente para os iorubanos, Os Egugun ou ancestrais são homenageados por meio de cultos rituais, cuja tarefa é de materializar-lhes no mundo dos viventes e lembrar-lhes da vida passada. Esses rituais possibilitam o encontro dos seres divinizados com entes familiares aqui no aiyê e, simultaneamente, cumprem a função de conexão entre a vida e a morte, ao mesmo tempo em que reforçam as relações sociais. Ao falar sobre a função dos ritos em diferentes sociedades, Godelier acrescenta:
Não é o objeto que cria as diferenças, são as diversas lógicas dos domínios da vida social que lhes conferem sentidos diferentes na medida em que se deslocam de um para outro e trocam de função e de emprego. (2001:165).
Assim, os ritos mortuários presentes em todas as sociedades cumprem em cada grupo a sua função e ainda que em cada uma dessas populações eles sejam compreendidos de maneira diferente, mesmo assim eles são carregados de significados e exercem grande influência mítica, contribuindo para a formação identitária daquele grupo.
Na medida do possível, faremos algumas aproximações entre a idéia de morte descrita por Mauss e as concepções que envolvem os rituais mortuários de matriz africana preservados no Brasil que, segundo Braga (2006), a noção de ancestralidade afro-brasileira forjada no interior do culto aos ancestrais parece ser um elemento exponencial na construção da identidade étnica da população negra nos terreiros de Orixá e de Egun em São Paulo e na Bahia, onde realizamos algumas observações.
Particularmente, esses rituais são muito complexos, compostos por várias etapas, sendo que algumas delas são restritas aos familiares e adeptos da religião. Além disso, existem cerimônias específicas em que esses espíritos ancestrais se fazem presentes no aiyê, isto é, no mundo dos vivos por meio de ritos próprios para tais circunstâncias. É necessário dizer que os ritos para os ancestrais ou Egun são praticados em espaço diferente daquele em que se cultuam os orixás, pois estes pertencem a outra dimensão. Geralmente estes ritos encerram muitos tabus e são carregados de símbolos e significados pouco conhecidos pela sociedade mais ampla circundante, até mesmo por uma grande parte dos adeptos aos orixás.
Neste sentido, as concepções de vida relativas ao homem africano diferem daquelas investigadas por Mauss, visto que naquelas culturas existem um forte apelo para punições. A idéia de finitude, o conceito de céu e de inferno, além de um julgamento pós-morte fez com Mauss refletisse sobre os efeitos físicos da morte, especialmente, no momento em que o indivíduo se julgava enfeitiçado ou castigado por deus.
Em contrapartida, tanto na população estudada por Mauss quanto na população africana, sobretudo, a iorubana, as pessoas são compostas de duas porções: a física e a sobrenatural, embora concebidas de maneira completamente diferente. Enquanto a primeira está associada a estágios distintos, na segunda a morte representa uma passagem, já que tudo acontece num mesmo círculo, sem ruptura, ou seja, aqui a pessoa é vista na sua totalidade. A morte é concebida como um valor civilizatório como outros elementos culturais, tais como: oralidade, memória, corporeidade, musicalidade, dentre outros. Essa idéia da totalidade humana é referida na vida cotidiana de algumas populações africanas, principalmente na região da Nigéria e mostra-se em consonância com o pensamento de Mauss, como ele assinala no fragmento abaixo:
[...] A consideração do social é necessária. Inversamente, a simples consideração desse fragmento de nossa vida que é nossa vida em sociedade não basta. Vê-se aqui de que modo o “homo duplex” de Durkheim se situa com mais precisão, e de que modo podemos considerar sua dupla natureza.
E acrescenta. 
[...] por fim, desse duplo ponto de vista, do estudo da totalidade da consciência e da totalidade da conduta, penso que esses fatos são interessantes. Eles opõem essa “totalidade” daqueles que chamados impropriamente primitivos, à dissociação característica dos homens que somos, sentindo nossas pessoas e resistindo à coletividade. (2003:364).
Embora o fragmento do texto de Mauss esteja em consonância com a visão de mundo dos africanos, estes últimos possuem maneiras distintas para apreender o social, bem como a totalidade. Posto que para os iorubanos não existe o conceito de punição – homens, mulheres e criança vão para o mesmo lugar -, também não há julgamento, logo os Espíritos podem retornar à vida do Orun – o mundo sobrenatural onde estão as divindades.
Ao refletir sobre a constituição do homem compreendemos que esta constituição é composta por dupla natureza: uma que se refere à coletividade[1] e outra feita individualmente, uma parte sagrada e uma profana, pois o homem estabelece relações com seus pares, com a natureza e os animais, portanto o viver em sociedade não basta e como a porção sagrada é parte de um todo, logo o homem é por natureza um ser dual. A este processo Durkheim (1989) chamou de homo duplex.
Para Godelier quando o sagrado aparece o real torna-se opaco e no momento em que a porção sagrada do homem surge o real tende a desaparecer, possibilitando o contato apenas com a natureza sagrada, fato que pode ser observado no candomblé, ou seja, quando o orixá está presente a pessoa real desaparece e o que prevalece é a atitude do ser divinizado – o Orixá. Igualmente podemos pensar na transubstanciação que ocorre durante a missa, momento em que o sacerdote diz que quem está presente é o corpo e sangue de Cristo. Neste instante o padre deixa o vinho de uva e o biscoito de farinha tornarem-se o corpo e o sangue de Cristo. Este duplo imaginário existente no homem é ao mesmo tempo parte das relações sociais e individuais, como nos mostra Godelier.
O círculo se fecha. As idéias correspondem às coisas. As coisas e os fatos correspondem às idéias. A verdade é verificada. Se evidência não pode ser negada. O homem encontra-se murado no mundo de suas representações e de seus desejos, de sua vontade. E no curso do mesmo processo são suas relações sociais que se constroem de modo tal que a opacidade necessária à sua existência, à sua a reprodução, possa, ao mesmo tempo, ser reproduzida.
Portanto não estamos lidando com fenômenos puramente intelectuais,  porém, mais profundamente, com a parte que o pensamento assume no próprio processo de reprodução das relações sociais, com a parte ideal do real social. (2001:204-205).
Em contrapartida, ao revelar o sobrenatural o que prevalece é o objeto imaginado, então a opacidade encobre uma parte deste duplo[2] e carrega consigo a consciência coletiva e individual, elementos imprescindíveis nas relações sociais. Por isso Godelier (2001) insiste em dizer que o sagrado traveste o social, torna-o opaco a si mesmo. No momento em que o imaginado aparece desaparecem o individual e o coletivo, prevalecendo, apenas, o sobrenatural. É por assim dizer um se esconde para revelar o outro. Portanto, nas sociedades atuais o mito tem o papel de revelar o sobrenatural ocultando o real.
Trouxemos até agora algumas reflexões em torno dos principais ritos que envolvem a vida humana, especialmente os mortuários, levando-se em consideração as funções desempenhadas pelos ritos no processo da dádiva discutida por Mauss, já que na morte há a idéia de troca, ainda que esta seja apreendida de maneira diferente. Na idéia de morte entendida por Mauss há a troca da vida pela morte, enquanto que para alguns povos há uma mudança de estágio, na medida em que a morte significa continuidade. O que ocorre é a vida numa outra dimensão, conhecida pelos adeptos das religiões de matriz africana como orun, lugar onde vivem os espíritos ancestrais, também conhecidos como Egun, como é o caso da visão sobre mortuária dos africanos.
Ainda caminhando nesta linha de raciocínio, Mauss discorreu sobre diversos tipos de trocas, tais como as trocas materiais e simbólicos. É sobre estas últimas que nos ocupamos ao longo deste texto, ou seja, tratando de um duplo elemento que se torna opaco ao revelar do outro, ou seja, a vida compreendida por nós como infinita, como um valor civilizatório que está num círculo, na qual simbolicamente não há ruptura e vida e morte fazem parte deste mesmo círculo. Se assim entendemos a morte há uma divergência entre a idéia proposta por Mauss, Godelier e Eliade, pois todos eles afirmam que é necessário haver uma morte para o surgimento de uma nova vida. É preciso morrer (naturar) e nascer para algo superior, que seja ao mesmo tempo religioso e cultural, dizia Eliade (1996).
A partir da reflexão do conceito de morte para os africanos, Leite (1982) nos dá uma belíssima definição:
A Imortalidade em causa, entretanto, não é aleatória; está referida à sociedade que a concebe, seja através da inserção desse princípio na massa ancestral após a morte do corpo, seja por forças da reencarnação. Ela é assim, uma imortalidade diferenciada e não pode ser compreendida a não ser, enquanto proposição histórica que estabelece relações vitais entre o natural e o social. (1982:87).
Com esta citação o autor deixa claro que a concepção de morte só pode ser compreendida se levarmos em conta os fatores históricos e sociais, mostrando-nos que tal noção está sempre atrelada às relações que uma determinada sociedade estabelece com as coisas terrenas e as coisas sobrenaturais.
Para além do palpável está o conceito de imortalidade, por sua vez algo irreal, mas também real. É irreal do ponto de vista que são Espíritos Ancestrais, que vivem numa outra dimensão e são reais quando se pode ouvi-los, vê-los dançar e andar a partir da inferência dos ritos e rituais realizados adequadamente para que estes Espíritos venham ao nosso meio. Para elucidar, Braga acrescenta:
O espírito ancestral representado pela roupa é a expressão simbólica de um mundo inatingível pelos vivos. Por isso, comporta mistério sagrado e profano, só alcançado após a morte. (1992:107).

Os ritos e sua função na vida humana
Falamos dos diversos ritos pelos quais passa o homem durante a sua existência terrestre. Ritos estes que vão desde o nascer até a sua morte, uma vez que estamos tratando a morte como algo cíclico, portanto entendida como estágio. São estes rituais ao longo da vida que darão a plenitude humana, na medida em que o indivíduo ao nascer ainda não se encontra totalmente acabado, necessitando, desta forma, dos ritos para completá-lo e por isso tornam-se imprescindíveis sucessivos rituais a fim de inserir o indivíduo no meio social.
Em muitas culturas o nascimento, o batizado e o casamento são comemorados. Em outras culturas a passagem da adolescência para idade adulta é marcada por diversas comemorações que, em alguns casos, incluem alguns sinais que diferenciam o indivíduo dos demais adolescentes. Assim como ao longo da vida o indivíduo também receberá outras marcas corpóreas, que representarão outras passagens de sua vida social, é somente graças a esses ritos que o indivíduo ingressa na sociedade dos viventes (ELIADE, 1996).
A preparação do corpo de um membro do candomblé no sepultamento, dentro dos princípios africanos, é realizada numa grande cerimônia supervisionada por um outro Egungun, além disso são realizados rituais específicos com oferendas e sacrifícios para marcar o local do sepultamento. Existem também outras cerimônias que homenageiam os Egun. Obrigatoriamente estas festas são realizadas em espaços diferentes onde são cultuados os Orixás, já que são os princípios distintos. No Brasil, em especial na Ilha de Itaparica, na Bahia, fica a Casa do Babá Egun, a mais famosa de todas no Brasil. 
A complexidade que envolve os rituais mortuários está relacionada com a transformação – e não com uma mudança qualquer -, numa ordem ontológica e social, uma vez que os ritos são legitimados pela sociedade ou coletividade, porém em alguns casos a idéia de morte pode conter vários elementos que estão para além de causas naturais, mas sim amplamente ancoradas no social e respaldadas pela coletividade.
Ao estudar a sociedade australiana Mauss observou que as ações da moral sobre o físico eram mais notáveis, pois os indivíduos apresentavam muita resistência física e que esta última se contrapunha à idéia de fragilidade psicológica, uma vez que essas pessoas apresentavam muita fragilidade física quando algo se referia à magia, isto é, mesmo que o indivíduo estivesse sadio e sem nenhuma doença mas se este mesmo indivíduo ao acreditar que algum tipo de magia entrou em seu corpo poderia morrer em poucos dias, pois já não possuía quaisquer forças para lutar contra algo desconhecido.
Este fato também pode ser amplamente verificado em Cachoeira, na Bahia. Há muitos anos as pessoas informalmente comentavam que as mães e pais-de-santo possuíam poderes mágicos capazes de provocar a morte em até 24 horas. Sobre este ponto Mauss diz:
Esse estado coincide geralmente com a ruptura de comunhão, seja por magia, seja por pecado com as forças e coisas sagradas cuja presença normalmente o sustenta. (2003:350)
A partir do pensamento de Mauss a morte provoca uma mudança brusca, já que o corpo desaparece do convívio social. Desta forma, os ritos que precedem a morte do indivíduo é de extrema importância para que o espírito encontre a comunidade dos mortos e este seja aceito neste novo grupo.
Em algumas sociedades africanas o sepultamento ritual é o que verdadeiramente confirma a morte do indivíduo, princípio também observado nas religiões brasileiras que se baseiam na matriz africana, especialmente nas casas mais tradicionais em que o rigor é a tônica de todos os rituais mortuários denominados axexê – que em momento oportuno descreveremos os rituais que o compõe. Neste contexto, a presença da coletividade, ou melhor, dos indivíduos torna-se essencial para a legitimação de tal prática. Neste sentido Mauss segue analisando a importância do social para a legitimação de um ato:
O que lhes confere um caráter social ainda mais marcado; pois eles dependem evidentemente da presença ou ausência de um certo número de instituições e de crença precisas desaparecidas do leque das nossas: a magia, as interdições ou tabus etc. (Mauss, 2003:350).
Vimos que o social corrobora para que a morte encontre um lugar na vida das pessoas. Assim, também as causas morais ou religiosas contribuem para que a morte possa ocupar um lugar na existência humana, isto é, se um determinado indivíduo comete uma violação de uma regra respeitada por todos os demais da sociedade na qual vive, o mesmo poderá pagar com a própria vida para que seja reparada tal violação, desde que seja um consenso de toda a população.
Eliade ao discorrer sobre o sepultamento ritual observa que:
Aquele que não é enterrado segundo o costume não está morto. Além disso, a morte de uma pessoa só é reconhecida como válida depois da realização das cerimônias fúnebres, ou quando a alma do defunto foi ritualmente conduzida a sua nova morada, no outro mundo, e lá foi aceita pela comunidade dos mortos. (1996:151)
Este pensamento de Eliade (1996) está em convergência com a mentalidade africana no que se refere à morte, principalmente quando observamos as falas de mães e pais-de-santo que afirmam categoricamente que ao morrer gostariam de ser enterrados à maneira religiosa africana, mas que na ausência de uma sacerdotisa ou sacerdote possuidores de conhecimentos apropriados para realizarem todos os procedimentos dentro dos princípios religiosos, dizem preferirem um sepultamento como o de qualquer outro brasileiro. Embora sejam rituais extremamente complexos e secretos, as pessoas têm consciência da importância de práticas rigorosas. Sobre esse tema Leite acrescenta:
[...] a expressão secreta é utilizada para indicar a existência de grupos de pessoas detentoras de conhecimentos específicos relacionados com determinadas instâncias, as quais podem envolver o mágico e o sagrado. Embora uma grande parte de suas ações rituais seja fechada a comunidade conhece a existência dessas associações e mesmo, muitas vezes, quais postos e funções são ocupadas e exercidas pelos seus dignatários (1982:91).
Segundo Leite (1982), estes rituais contribuem, sobretudo, para fortalecer as relações sociais. Embora haja quem conteste que os ritos mortuários praticados no Brasil conservem poucos elementos rituais dos que aqui foram apontados, contudo, é preciso ressalvar que houve rupturas, ressignificações e adaptações para que pudessem ser mantidos traços mais característicos de sua cultura, pois sem ruptura não há continuidade, assinala Bernardo (2003).
A partir da ruptura pode-se assistir ao encontro de elementos tradicionais em contato com elementos modernos e esta é uma das muitas formas que fez com houvesse a preservação desta cultura ancestral. Assim poderíamos pensar que em cada diáspora africana pode-se encontrar os mesmos ritos mortuários oriundos do continente africano, porém com algumas diferenças, como em Cuba ou no Haiti. O que nos interessa é saber que a sua base foi mantida, ou seja, uma vez que tais rituais continuam a desempenhar funções preponderantes, cuja finalidade é readquirir a organização face ao desequilíbrio entre os viventes causada pela morte. (Leite, 1989).
O segredo é para ser guardado
Os primeiros negros e negras que aqui chegaram trouxeram consigo a sua cultura e aos poucos foram encontrando um jeito particular para lidar com o processo escravista,  ressignificando, reinterpretando a realidade com o objetivo de manter seus traços culturais mais característicos.  
Muitos estudos análogos sobre as religiões africanas objetivavam a compreensão da visão de mundo daquelas sociedades, ao mesmo tempo constituem-se em importantes estratégias utilizadas para a manutenção de traços culturais. Além disso, quase todos os setores das sociedades africanas estavam ancorados em pilares religiosos, ou seja, a religião em grande parte da África é o sistema organizador do social, do político e do econômico, isto é, as decisões a serem tomadas são consultadas em primeiro lugar por meio do líder religioso. Mas qual seria a relação dos ritos mortuários e a dádiva discutida por Mauss e Godelier?
A partir da posição de Mauss que diz que nem tudo pode ser trocado, uma vez que existem elementos que devem ser guardados, entendemos que os ritos são elementos que não circulam e quando isto acontece é feito de maneira bem restrita. Seguindo a mesma linha de raciocínio de Mauss, Godelier ressalta a necessidade de nem tudo não ser trocado ou divulgado, justificando que guardar uma informação, reter um determinado objeto é preservar um certo poder. Como bem expressou neste fragmento:
[...] o que demonstra que nas crenças dos baruyas há lugar, como qualquer religião, para alguns silêncios, algumas amnésias, sobretudo nos casos em que ser surdo, cego ou perder a memória pode ser útil, e mesmo necessário, para manter o poder. (2001:180).
Esta idéia trabalhada por Godelier converge, em certa medida, com a visão de mundo dos africanos, pois ao mesmo tempo em que tudo deve ser compartilhado, estes indivíduos também limitam esta partilha, já que nem todos estão preparados para ter, adquirir ou manipular determinados conhecimentos. Este acesso, para alguns, é feito de maneira processual, respeitando certa idade para que possa ser submetido a alguns rituais. O segredo torna-se muito importante para a preservação de um certo ethos.
Diante do processo de modernização que passa o mundo, no qual de um lado fica a tradição presente por meio dos seus ritos e do outro a modernidade que dá amplo acesso a todos e a tudo, poderíamos então perguntar: qual a função da dádiva para o homem moderno e qual o lugar dos rituais para a atualidade?
Nesta perspectiva, os ritos mortuários e as concepções de segredo que estão presentes na base dos rituais mortuários de matriz africana, principalmente naquilo que concerne os símbolos religiosos, que auxiliam na construção do imaginário dos adeptos do candomblé brasileiro, contribuem para a preservação de um determinado ethos, em especial no que diz respeito às noções de segredo, tendo em vista que estes ritos são considerados como ethos de uma tradição que se reveste de um caráter sigiloso. Geertz discutindo sobre a construção de uma visão de mundo a partir da religião expõe:
Desta forma os símbolos sagrados relacionam uma ontologia e cosmologia com uma estética e uma moralidade: seu poder peculiar provém de sua suposta capacidade de identificar o fato com o valor no seu nível mais fundamental, de dar sentido normativo abrangente àquilo que, de outra forma, seria apenas real (Geertz, 1978: 144).
Vimos até aqui que assim como um casamento, uma festa de formatura, um batizado, uma feitura de um filho-de-santo contribuem para o ingresso na esfera social, a morte também marca uma nova fase da vida humana. E mesmo que a morte esteja associada ao desaparecimento material da pessoa ainda assim ela assinala para um outro momento, pois a morte, como outros princípios africanos, acontece dentro de um círculo e torna-se necessária para a continuidade do círculo. Deste modo, o que era para ser considerado como um fim último acaba por se tornar uma ruptura do ponto de vista social, já que aquele que morreu já não faz parte do mundo material e visível, enquanto que para o mundo espiritual ele está presente, mudando de posição dentro do círculo da vida. E por isso o segredo torna-se necessário na preservação de saberes tradicionais.
A partir desta premissa, podemos dizer que os rituais são importantes para que a pessoa que morreu possa existir no meio social e assim os rituais têm o papel de tornar possível o contato do ser divinizado ou Egun com o mundo dos vivos, uma vez que só através dos ritos é possível trazê-lo ao Orun.
O estudo de um dos muitos aspectos que envolvem a vida do homem está ligado ao ato de morrer, o que significa que este é mais uma característica para reforçar as relações sociais, ao mesmo tempo em que também reforça as relações entre natureza e cultura, natural e sobrenatural, isto é, entre o Aiyê e o Orun, entre vivo e morto, entre o visível e o invisível. Mauss mostrou que os rituais mortuários possuem sua eficácia simbólica a partir do momento em que todo o grupo legitima, igualmente acontece com outros rituais de passagem que compõem a vida cotidiana. Como bem explicita Morin:
Toda palavra pode ser símbolo, mas o símbolo transborda para fora da linguagem e pode responder no interior de qualquer sinal, de qualquer forma e de qualquer objeto. O símbolo é a coisa quer abstrata quer particular que contem em si todo o concreto e a riqueza que simboliza. (MORIN, 1970).
Por mais que a morte seja vista por grande parte dos ocidentais como algo fantasmático, a sua simbologia é parte integrante do imaginário identitário de todos os seres humanos. E ainda que procuremos colocar a morte longe do plano terreno o símbolo mortuário é parte indissociável do homem.
Considerações finais
Refletir sobre a temática mortuária, a partir dos preceitos africanos, é sem sombra de dúvida uma tarefa um tanto quanto difícil, porque requer uma nova postura frente a uma cultura complexa que se afasta da maneira ocidental de pensar. No primeiro momento é necessário mudar as lentes para enxergar o que cada gesto nos procura mostrar. Num segundo momento requer que o pesquisador tente entender os fenômenos levando em conta seu contexto sócio-cultural.
Fazer o exercício de pensar a morte tendo como base o pensamento de Mauss nos levou a entender que embora os rituais mortuários sejam diferenciados em cada cultura, ainda assim existem características basilares que podem ser encontradas em qualquer cultura, tal como a concepção de natureza humana passa pelo individual e coletivo, pelo visível e invisível, portanto a pessoa humana é dupla em qualquer sociedade. Neste sentido, a dualidade é uma marca diferencial entre os seres vivos.
O exercício reflexivo apresentado até aqui reforça a nossa idéia de que os saberes tradicionais serão preservados por meio dos rituais pouco circuláveis que tendem a garantir a especificidade de um determinado grupo, contribuindo, sobremaneira, para revelar uma das identidades da população negra e daqueles que enxergam a morte não como um fim último, mas, sobretudo, como um processo contínuo e necessário. 

Bibliografia
BERNARDO, Teresinha. Negras Mulheres e Mães: lembranças de Olga de Alaketu. São Paulo, EDUC; Rio de Janeiro: Pallas, 2003.
BRAGA, Julio. Ancestralidade afro-brasileira: o culto de Babá Egum: Salvador. CEAO/Ianamá;. 1992.
__________. Candomblé: tradição e mudança. Salvador: P555 Edições. 2006.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. São Paulo. Edições Paulinas, 1989.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro. Zahar, 1978.
GODELIER, Maurice. O enigma do dom. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
LEITE, Fabio da Rocha. Uma Questão Ancestral. São Paulo, FFLCH/USP, 1982.
MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
MORIN, Edgar. O homem e a morte. Portugal: Publicações Europa-América. 1970.


* Mestre e Doutoranda do Programa de Estudos Pós-graduados de Ciências Sociais/Antropologia da PUC-SP.
[1] Sobre o mesmo tema ver ELBEIN, Juana. 1984.
[2] Morin em sua obra O homem e a morte (1970) faz uma importante e detalhada discussão sobre o duplo presente na constituição do homem.